Aplicação de novos conhecimentos - Atividade 6: Leitura de entrevista
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| Documento 4 |
"O Pasquim" foi um importante jornal da imprensa alternativa que atuou durante a Ditadura Civil-Militar. Com muito humor e ironia, o jornal representou uma importante forma de resistência política e cultural contra o regime, através de uma linguagem jornalística debochada. Outra característica marcante era a proposta de apresentação de entrevistas longas, com a participação de muitos entrevistadores em ambientes informais com a tentativa de construir um diálogo coloquial e descontraído. A entrevista de Luiz Gonzaga concedida ao Pasquim em agosto de 1971 será o quarto documento de nossa oficina. Durante a leitura os grupos devem localizar os seguintes pontos:
- Como Luiz Gonzaga explica seu afastamento da cena do Sudeste durante alguns anos.
- Localizar o público preferencial do artista.
- Qual o tipo de financiamento de sua carreira.
- Qual o tipo de show que realizava.
- Quais as referências a uma origem humilde.
- O retorno social de seu trabalho.
- A forma como o artista se refere à construção que fez da imagem do nordestino.
Ao final da atividade, os grupos devem retomar o conteúdo da aula expositiva (Atividade 3), para analisar a trajetória do artista Luiz Gonzaga e sua presença no cenário artística nacional, relacionando-a aos contextos específicos do período democrático (1945-1964) e da Ditadura Militar (1964-1985).
"A gente não se perdoa de só agora, na edição 111 [17 a 23
de agosto de 1971], entrevistar uma das figuras mais quentes, mais
importantes, mais talentosas da nossa música popular: Luiz Gonzaga, o velho Rei
do Baião, nordestino legítimo de cara, alma e coração. Pra compensar nosso
atraso, resolvemos (modéstia à parte) dar um banho em matéria de Luiz Gonzaga.
Após a entrevista, ele apanhou a sua sanfona no carro e deu um show pra gente aqui na redação. O negócio foi tão bom que juntou gente na rua. Mas isso não dá pra transcrever no jornal. Foi impossível, apesar dos nossos esforços, botar som nesta edição d'O Pasquim.
Após a entrevista, ele apanhou a sua sanfona no carro e deu um show pra gente aqui na redação. O negócio foi tão bom que juntou gente na rua. Mas isso não dá pra transcrever no jornal. Foi impossível, apesar dos nossos esforços, botar som nesta edição d'O Pasquim.
O PASQUIM
- Luiz Gonzaga, como é que você está se sentindo depois que você voltou àmoda?
LUIZ GONZAGA - É danado, né? É melhor vocês falarem de mim porque eu mesmo não sei o que sou, não sei porque falam de mim. Eu não entendo nada, eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana, é, mas deixa o povo falar. Vocês me conhecem mais do que eu próprio.
LUIZ GONZAGA - É danado, né? É melhor vocês falarem de mim porque eu mesmo não sei o que sou, não sei porque falam de mim. Eu não entendo nada, eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana, é, mas deixa o povo falar. Vocês me conhecem mais do que eu próprio.
O PASQUIM
- Na época que você esteve afastado aqui do centro do Brasil você não sentiu
falta? Você nunca parou de fazer sucesso? Quando os seus discos pararam
de vender aqui no sul você continuou a fazer sucesso no interior e no Nordeste,
não é?
GONZAGA - É interessante, eu nunca me senti bem para caitituagem. Chegar com o disco debaixo do braço e pedir para tocar, eu sempre achei isso horrível. Eu sabia que se eu caitituasse, se pedisse, se implorasse, eu conseguiria alguma coisa, mas meu temperamento não permitia. Uma vez eu procurei um disc jockey meu conhecido, pela afinidade de termos trabalhado na Mayrink Veiga juntos e ele ser madurão como eu, pedi para ele tocar uma música minha no programa dele e ele me disse: 'Gonzaga, você passou, me desculpe a franqueza'. Aí eu botei minha viola no saco e fiquei com vergonha de chegar em casa. Fui para Miguel Pereira, sumi. Então, daí pra cá eu fechei o balaio. Eu vou dizer o nome dele! Isaac Zaltman.
GONZAGA - É interessante, eu nunca me senti bem para caitituagem. Chegar com o disco debaixo do braço e pedir para tocar, eu sempre achei isso horrível. Eu sabia que se eu caitituasse, se pedisse, se implorasse, eu conseguiria alguma coisa, mas meu temperamento não permitia. Uma vez eu procurei um disc jockey meu conhecido, pela afinidade de termos trabalhado na Mayrink Veiga juntos e ele ser madurão como eu, pedi para ele tocar uma música minha no programa dele e ele me disse: 'Gonzaga, você passou, me desculpe a franqueza'. Aí eu botei minha viola no saco e fiquei com vergonha de chegar em casa. Fui para Miguel Pereira, sumi. Então, daí pra cá eu fechei o balaio. Eu vou dizer o nome dele! Isaac Zaltman.
O PASQUIM
- Mas você continuava enchendo praça, auditórios, circo, teatro, no interior do
Brasil, não é? Ou você estava parado?
GONZAGA - Tem
provérbio que diz: Deus escreve certo por linhas torras. Eu acho que eu estava
fazendo um trabalho sério sem saber que estava fazendo. Eu pegava os
patrocinadores, botava nas costas e ia cantar pro povo nas festas. Eu,
dificilmente, dava espetáculo no cinema, no teatro, pra cobrar, pro povo me ver
cantar. Eu cantava de graça na praça para o povo. Então eu consegui reunir as
maiores plateias. Daí os meninos iam me assistir, os futuros gênios, como Gil,
Caetano e outros e daí saíam querendo tocar sanfona.
(...)
O PASQUIM
- Como é que você consegue patrocínio e as coisas acontecem?
GONZAGA - Por
eu viajar quase sempre com patrocinadores, eu me habituei a cantar para público
tão numeroso que não me sentia bem em cantar para uma plateia pequena, mesmo
pagando bem. Eu me sentia sozinho. Então era um martírio pra mim ter que dar um
espetáculo. Até hoje eu me sinto assim. Quando me convidam pra trabalhar numa
festa, a primeira coisa que eu digo é: vão cobrar ingresso pra me ver? Se dizem
vamos, eu não vou. Eu não gosto. Eu gosto de cantar para o povo livre. Eu
acabei achando que fiz bem, que cobrei bem porque todo mundo me viu cantar de
graça. Os maiores patrocinadores que eu tie foram: o Moura Brasil, Alpargatas
Roda, Martini, Cinzano, Café Caboclo. Isso no Sul. Para o norte, Aguardente
Chica Boa, Serra Grande, Pitú, Casas Pernambucanas, Lojas Paulistas.
(...)
O PASQUIM –
Quando foi feito o filme com “Mulher rendeira”, você já estava na praça ?
GONZAGA – Já. Fui eu quem lançou o chapéu de couro no Rio de Janeiro. Naquela época quando aparecia um filme de cangaceiro muita gente via a minha cara no filme. Tinha gente que dizia assim:eu vi, você trabalhou bem. Eu dizia: mas eu não trabalhei. Naquela época já existia baião.
GONZAGA – Já. Fui eu quem lançou o chapéu de couro no Rio de Janeiro. Naquela época quando aparecia um filme de cangaceiro muita gente via a minha cara no filme. Tinha gente que dizia assim:eu vi, você trabalhou bem. Eu dizia: mas eu não trabalhei. Naquela época já existia baião.
O PASQUIM –
Como é que você consegue patrocínio e as coisas aconteceram?
GONZAGA – Devido eu viajar quase sempre com patrocinadores eu me habituei a cantar para público tão numeroso que não me sentia bem em cantar para uma platéia pequena, mesmo pagando bem. Eu me sentia sozinho. Então, era um martírio para mim ter que dar um espetáculo. Até hoje eu me sinto assim. Quando me convidam para trabalhar em uma festa, a primeira coisa que eu digo é: vão cobrar ingresso para me ver ? Se dizem vamos, eu não vou. Eu não gosto. Eu gosto de cantar para o povo livre. Eu acabei achando que fiz bem, que cobrei bem porque todo mundo me viu cantar de graça. Os patrocinadores que eu tive maiores foram: o Moura Brasil, Alpargatas Roda, Martini, Cinzano, Café Caboclo. Isso no sul. Para o norte: Aguardente Chica Boa, Serra Grande, Pitu, Casas Pernambucanas, Lojas Paulistas.
O PASQUIM – Qual foi o maior sucesso seu , o dia mais glorioso seu na praça ?
GONZAGA – Aconteceu comigo em Recife. Devido eu estar habituado a cantar pra milhares de pessoas por mais que eu pedisse pra fazer o espetáculo em praça pública, os diretores da rádio teimaram e me botaram dentro da rádio. Então, eu fui pra rádio, eu cheguei na rua onde estava a rádio e vi um público enorme interrompendo o trânsito. Eu não sabia o que estava acontecendo. Achei que podia ter sido um incêndio, qualquer coisa. Parei o meu carro e vim de pé, pelo meio do povo. Aí eu perguntei a um popular: escuta, o que houve aí ? Ele me disse: O Luiz Gonzaga vai cantar aí hoje e o povo não pode entrar porque não coube. Aí eu tive a curiosidade de observar o tamanho do público, as eu não podia, tinha que trepar em alguma coisa. Era um mar de gente. Aí eu não me contive e tive que cantar na rua.
GONZAGA – Devido eu viajar quase sempre com patrocinadores eu me habituei a cantar para público tão numeroso que não me sentia bem em cantar para uma platéia pequena, mesmo pagando bem. Eu me sentia sozinho. Então, era um martírio para mim ter que dar um espetáculo. Até hoje eu me sinto assim. Quando me convidam para trabalhar em uma festa, a primeira coisa que eu digo é: vão cobrar ingresso para me ver ? Se dizem vamos, eu não vou. Eu não gosto. Eu gosto de cantar para o povo livre. Eu acabei achando que fiz bem, que cobrei bem porque todo mundo me viu cantar de graça. Os patrocinadores que eu tive maiores foram: o Moura Brasil, Alpargatas Roda, Martini, Cinzano, Café Caboclo. Isso no sul. Para o norte: Aguardente Chica Boa, Serra Grande, Pitu, Casas Pernambucanas, Lojas Paulistas.
O PASQUIM – Qual foi o maior sucesso seu , o dia mais glorioso seu na praça ?
GONZAGA – Aconteceu comigo em Recife. Devido eu estar habituado a cantar pra milhares de pessoas por mais que eu pedisse pra fazer o espetáculo em praça pública, os diretores da rádio teimaram e me botaram dentro da rádio. Então, eu fui pra rádio, eu cheguei na rua onde estava a rádio e vi um público enorme interrompendo o trânsito. Eu não sabia o que estava acontecendo. Achei que podia ter sido um incêndio, qualquer coisa. Parei o meu carro e vim de pé, pelo meio do povo. Aí eu perguntei a um popular: escuta, o que houve aí ? Ele me disse: O Luiz Gonzaga vai cantar aí hoje e o povo não pode entrar porque não coube. Aí eu tive a curiosidade de observar o tamanho do público, as eu não podia, tinha que trepar em alguma coisa. Era um mar de gente. Aí eu não me contive e tive que cantar na rua.
O PASQUIM –
Mas você estava falando negócio de dinheiro. O que você tem?
GONZAGA – Dinheiro eu não tenho. Quem guarda dinheiro eu acho que é um besta. Hoje tem essas financeiras por aí, mas não dá pra entender porque o Luizinho não me explica. Quando eu estava no apogeu, o artista não ganhava tanto dinheiro assim. Agora que eu ouço falar que fulano ganha bilhões, que sicrano já comprou um galaxie. Eu nunca usei um carro do ano. Eu sempre usei uma camionete, uma rural porque sempre eu respeitei o meu público. Eu tenho escola no sertão. Eu mantenho uma escola lá até hoje. Ela havia se acabado no passado porque o governo construiu lá um grupo escolar com o meu nome, então a minha escolinha ficou em segundo plano. Mas quando foram conferir os alunos, não cabia no grupo escolar que o governo construiu. Então a minha escolinha se impôs e continua.
O PASQUIM – Onde é ?
GONZAGA – Em Exu, na minha terra. Numa fazenda onde eu nasci. Exu é o município e a fazenda chama-se Araripe, onde eu nasci e me criei. Hoje é uma simples fazenda, onde mora só gente pobre, trabalhadores rurais, e nós temos cento e tantos meninos estudando. Isso não é de hoje. Já tem mais de dez anos. Em Miguel Pereira eu também tenho uma escolinha. Eu tenho mania de escola porque eu não tive escola, então eu tenho que dar escola, porque eu sei a falta que me faz. Eu gasto, tenho família numerosa. Quando eu vou pro norte eu levo sanfona, duas , três no carro pra distribuir pra aquelas pessoas. Eu dou muita esmola, mas não gosto de meter a mão no bolso e dar pro povo ver. Eu faço minhas caridades escondido pra fugir da exploração."

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